Admiro Clovis Rossi, colunista da Folha, textos extremamente inteligentes e com propriedade, este, que divido com meus amigos, é uma verdade profunda e que nos preocupa muito. Boa leitura.
Atos secretos, funcionários secretos, secretamente contratados e demitidos e, agora, uma conta secreta, como se houvesse um Senado do "b" funcionando ali no Planalto Central.
Anteontem, enquanto escrevia um texto sobre os escândalos envolvendo o primeiro-ministro italiano Silvio Berlusconi, trombei com um comentário de Edmondo Berselli, do jornal "La Repubblica", que falava em "prostituição do regime".
Pensei: bom, no Brasil ainda não chegamos a tanto. Mas, no caso do Senado, talvez já seja a hora de repensar. O descontrole foi longe demais. Ou melhor, o que já se sabe sobre a Casa foi longe demais, mas, pelo andar da carruagem, ainda pode-se chegar bem mais longe.
E, convenhamos, o movimento "fora Sarney", que se esboça no próprio Senado e, com muito mais força, em setores da opinião pública, não é a solução. A rigor, se Sarney deixar a presidência, pode até saciar a sede de sangue de parte do público, mas acabará sendo apenas o bode que se tira da sala.
O problema do Senado vai muito, muito, muito além de Sarney. Envolve todas as Mesas Diretoras dos últimos muitos anos e, ao menos indiretamente, envolve todos os senadores que as elegeram -o que significa que devem sobrar dois ou três, se tanto, não maculados, seja por ação, seja por omissão.
A única maneira de enfrentar o escândalo é chamar a Polícia Federal e o Ministério Público para fazer uma varredura completa nesse aparelho clandestino que apenas por inércia chamamos de Senado. Ah, é bom lembrar, como fez ontem Fernando Rodrigues, que a Câmara não é muito melhor, não.
Não me venham, por favor, com violação da Constituição, respeito a um outro poder etc. O Senado caiu na clandestinidade. Clandestinos, ainda mais quando fazem trambiques com dinheiro público, são alvo da polícia necessariamente.
Da coluna de Clóvis Rossi na FSP de 25/06/09
Mostrando postagens com marcador clovis rossi. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador clovis rossi. Mostrar todas as postagens
quinta-feira, 25 de junho de 2009
domingo, 3 de maio de 2009
A louvação da picaretagem.
Este é o editorial de hoje do Clovis Rossi da Folha de São Paulo, é bem legal o que ele escreve sobre o que o presidente disse sobre as passagens. Muito bom, leiam.
É indecente e aética a defesa que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva faz do uso de passagens aéreas pelos deputados. Defender privilégios é sempre indecente e aético. E as passagens aéreas são apenas um dos elementos que compõem o elenco de privilégios dos pais da pátria. O fato de terem, nesta semana, vedado a transferência dos bilhetes para parentes, amigos e apaniguados é apenas tirar o bode da sala. Ou eliminar um abuso com o privilégio, mas não o privilégio.
Afinal, toda pessoa, física ou jurídica, que tenha assuntos a tratar em Brasília paga a passagem do próprio bolso. Congressistas pagam com o meu, o seu, o nosso bolso -e o presidente bate palmas, até porque não tem autoridade moral para criticar, porque confessa ter usado e abusado de idêntico privilégio, mesmo no tempo em que achava que a grande maioria do Congresso era formada por "picaretas".
Indecente e aética, a defesa que Lula faz do privilégio só não é surpreendente. É prima-irmã da que fez durante o escândalo do mensalão. "Todo mundo faz", afirmou, então, como agora. E o que é que "todo mundo faz"? É caixa-dois, o único crime confessado pela turma. E o que é caixa-dois? É "coisa de bandido", na ilustrada opinião de Márcio Thomaz Bastos, então ministro da Justiça de Lula.
Um presidente que dá de ombros para a prática por seus próprios correligionários de "coisa de bandido" não é exatamente o melhor exemplo que alguém possa invocar em matéria de cuidados com o dinheiro público, que é, em último análise, o fundo do debate.
Se o próprio presidente diz não achar "correto" dar passagens para outras pessoas, como ele o fez, deveria é repetir a frase sobre os "300 picaretas que defendem apenas seus próprios interesses". Mas o poder muda tanto as pessoas que, de condenar, passou a louvar "picaretas" e privilégios indecentes.
texto de Clovis Rossi
É indecente e aética a defesa que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva faz do uso de passagens aéreas pelos deputados. Defender privilégios é sempre indecente e aético. E as passagens aéreas são apenas um dos elementos que compõem o elenco de privilégios dos pais da pátria. O fato de terem, nesta semana, vedado a transferência dos bilhetes para parentes, amigos e apaniguados é apenas tirar o bode da sala. Ou eliminar um abuso com o privilégio, mas não o privilégio.
Afinal, toda pessoa, física ou jurídica, que tenha assuntos a tratar em Brasília paga a passagem do próprio bolso. Congressistas pagam com o meu, o seu, o nosso bolso -e o presidente bate palmas, até porque não tem autoridade moral para criticar, porque confessa ter usado e abusado de idêntico privilégio, mesmo no tempo em que achava que a grande maioria do Congresso era formada por "picaretas".
Indecente e aética, a defesa que Lula faz do privilégio só não é surpreendente. É prima-irmã da que fez durante o escândalo do mensalão. "Todo mundo faz", afirmou, então, como agora. E o que é que "todo mundo faz"? É caixa-dois, o único crime confessado pela turma. E o que é caixa-dois? É "coisa de bandido", na ilustrada opinião de Márcio Thomaz Bastos, então ministro da Justiça de Lula.
Um presidente que dá de ombros para a prática por seus próprios correligionários de "coisa de bandido" não é exatamente o melhor exemplo que alguém possa invocar em matéria de cuidados com o dinheiro público, que é, em último análise, o fundo do debate.
Se o próprio presidente diz não achar "correto" dar passagens para outras pessoas, como ele o fez, deveria é repetir a frase sobre os "300 picaretas que defendem apenas seus próprios interesses". Mas o poder muda tanto as pessoas que, de condenar, passou a louvar "picaretas" e privilégios indecentes.
texto de Clovis Rossi
Assinar:
Postagens (Atom)